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sábado, 17 de outubro de 2009

Caim

(...) Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, caim propôs a abel que trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava caim. Foi então que o verdadeiro carácter de abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. (...) A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mal e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de abel, os dichotes de abel, o desprezo de abel. Um dia caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditação. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. (...) Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado, Esse discurso é sedicioso, É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra, Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que abel morresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi dada por ti, O sangue que aí está não o fiz verter eu, caim podia ter escolhido entre o mal e o bem, se escolheu o mal pagará por isso, Tão ladrão é o que vai à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda, disse caim, E esse sangue reclama vingança, insistiu deus, Se é assim, vingar-te-ás ao mesmo tempo de uma morte real e de outra que não chegou a haver, Explica-te, Não gostarás do que vais ouvir, Que isso não te importe, fala, É simples, matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto, Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses, Sim, embora devessem carregar com todos os crimes cometidos em seu nome ou por sua causa (...)

Trecho de Caim, novo livro de José Saramago. Eu quero.

domingo, 16 de agosto de 2009

Malucos da fé

Sempre gostei de falar sobre religião e fanatismo (leia um post meu antigo falando sobre o assunto clicando aqui). E acumulo, seja nas viagens de metrô todas as manhãs até o cursinho, ou no ônibus, ou na rua, ou em qualquer lugar, besteiras ditas por protestantes (e bota protesto nisso!).
Dividirei em tópicos o que escuto desses doidos (desculpe se você é dessa religião, não tô generalizando. Tem muita gente que é religioso, mas respeita bastante a religião alheia, aí fica tudo certo):

- É unanimidade: quem está "pregando a palavra" fala mais do demônio e das coisas do mundo do que de Deus. Já dizia Empédocles que assim como todas as outras coisas da natureza, também nossos olhos são compostos de terra, ar, fogo e água. Assim, a terra contida em nossos olhos perceberia o componente terra no objeto visto; o ar, o componente ar; o fogo, o componente fogo; e a água, o componente água. Por essa lógica, se eles veem tanto pecado em tudo, os mais pecadores são eles.

- Evangélicos (mais um termo para eles, pra que tantos?) fazem questão de espalhar para todos que não são deste mundo. Ué, são de qual mundo, então? Mas dizem isso com uma firmeza imensa, e mostram por A + B que quem está num show, numa boate, lendo algo que não seja a Bíblia Sagrada ou ouvindo música que não seja gospel é do mundo. Eu digo com toda firmeza: sou do mundo, sim. Segundo consta, é nesse planeta que vivo desde que nasci, e é nele onde ficarei até morrer. Claro que sei que tenho que dar valor as coisas do espírito. E dou muito valor, sim. Só que, por estar na carne, também temos que saciar necessidades da mesma. Sem contar que, se estamos aqui, precisamos fazer uso do que aqui temos para progredir. E se eles não são do mundo, porque ouço tanto funk e suingueira gospel, com as "irmãs" todas rebolando?

- Eles são humildes o suficiente para dizer que não são nem um grãozinho de areia perto de Jesus. Mas se acham a força descomunal do universo quando tratam de descer o pau nas demais religiões e nas já mencionadas "coisas do mundo". Só eles estão certos e você está erradíssimo. E ele te diz isso com um sorriso nos lábios. Que gentil, né?

- Acho ERRADÍSSIMO quem prega no metrô. Ali há gente de vários tipos: protestantes, católicos, umbandistas, místicos, judeus, ateus. O normal é que todos fossem respeitados, mas ninguém lembra disso na hora de gritar a plenos pulmões direta e indiretamente que a religião protestante é a única correta. Eu queria ver se um seguidor da wicca fosse lá com um caldeirão fazer um ritual de magia as pessoas iam aceitar. Iam nada... Mas se os protestantes podem, porque os demais não?

- Hoje o cobrador do ônibus disse: "Reencarnação é coisa do demônio". Dito isto, começo a pensar que evolução espiritual também deve ser. Que preconceito.

É, tem gente que ama ser alienada. Eu paro por aqui, mas você sempre lerá algo do tipo no meu blog. Afinal, não dá para ficar calada no meio de tanta idiotice.

domingo, 29 de março de 2009

Sobre correntes por e-mail e imposições religiosas

Acredito que tem pouquíssimas coisas que acho mais insuportáveis no mundo internético do que correntes. Eu simplesmente ignoro.
Só que excepcionalmente hoje li uma que recebi de uma colega que fez cursinho comigo ano passado, sobre Deus. Falava como pra nós era pouco gastar 10 reais no shopping e como parecia muito entregar esses mesmos 10 reais na igreja. E mais alfinetadas do gênero. Aí me peguei pensando...
Cheguei a alguns questionamentos: pra quê mandar corrente por e-mail??????????????? Não há nada mais irritante do que isso. Se fosse algo interessante que valesse à pena ler, mas não, geralmente o conteúdo é algo que vai nos irritar profundamente (mais ainda do que as trocentas interrogações que pus no início desse parágrafo...), algo que alfineta até a nossa alma e nos faz fechar a página sem titubear. Eu não me sinto culpada de nunca responder nem enviar para outros que ainda não receberam (e por isso ainda não se irritaram).
Sério gente, é muita falta do que fazer! Nos dias de hoje, tem outras maneiras legais de disseminar boas (e más, afinal não vivemos num conto de fadas da Disney) ideias. Abra um blog, um podcast, um site, escreva para uma rádio, divulgue no twitter, MySpace, qualquer lugar onde tenha pessoas que possam gostar e aderir às suas ideias! Agora é chatíssimo ficar recebendo e-mails corrente com ameaças a quem não quer responder!
Agora, depois dessa corrente cristã que recebi passei a pensar em algo ainda mais sério (e que nem tem muito a ver com a tal corrente, mas eu pensei): há grupos de "evangelizadores" que saem daqui da minha cidade (e certamente de muitas outras do Brasil e do mundo) para a África para converter africanos ao cristianismo. Putz!
Se eu já acho absurdo impor religiões e crenças aqui no Brasil em que a maioria da população é cristã, imagine lá onde os africanos tem outro tipo de crença? Absurdo. Não se pode chegar em outras nações tentando impor "o bem". Por que o bem pode ser bem pra você, e pra eles? Não seria mais fácil, democrático e respeitoso se todos nós procurássemos antes de tudo entender as culturas que diferissem das nossas, e tentássemos uma integração?
Pra maioria não seria fácil não, porque sempre o que se acha é o correto... Quase todo mundo pensa assim: "MINHA religião é a correta, a SUA é avessa, portanto não é o bem."
Diante disso, eu só tenho mais uma coisa a dizer: se danem os imbecis que tentam impor culturas para os outros, isso é deprimente! Cada povo tem suas histórias, cravadas até cada limite dos seus territórios, não dá pra arrancar isso!!! E se é provado que o lugar que moramos nos traz emoções, sentimentos que só quem mora ali saberá explicar, nos traz uma cultura talvez divergente das demais, pra que querer essa "unidade" que nunca se formará? E sabe por que nunca se formará? Porque a verdadeira unidade entre os povos só será possível com o respeito, no qual culturas diferentes convivam sem combates.